O cenário global de investimentos em inteligência artificial e o que isso significa para empresas que operam no Brasil.
O mercado de inteligência artificial movimentou US$ 254,5 bilhões em 2025. As projeções para 2030 variam entre US$ 800 bilhões e US$ 1,8 trilhão, dependendo da fonte e do escopo. Mas independentemente de qual número se confirme, uma coisa é certa: estamos no meio da maior reestruturação tecnológica desde a internet e as decisões que empresas tomam agora vão definir quem compete no próximo ciclo e quem fica para trás.
Este artigo não é sobre futurismo. É sobre o que está acontecendo agora, para onde os maiores investimentos estão indo, e o que isso significa para empresas que operam no Brasil e na América Latina.
Para colocar em perspectiva: a IA está se espalhando mais rápido do que os telefones celulares se espalharam na sua primeira década de mercado. O que antes levava anos para se tornar padrão agora acontece em meses.
Esses números refletem não apenas gastos com software. Refletem uma mudança na forma como empresas alocam capital. Segundo dados de 2025, 89% das organizações planejam aumentar ou manter seus investimentos em IA. Entre essas, 62% planejam aumentos efetivos, e 39% projetam aumentos entre 25% e 50%.
40% do investimento empresarial em IA generativa já vem de orçamentos operacionais permanentes não mais de budgets de inovação ou experimentação. A IA saiu do laboratório e entrou no P&L.
A corrida tem protagonistas claros. Os hyperscalers Microsoft, Google, Amazon, Meta estão investindo centenas de bilhões em infraestrutura de IA. Mas a competição não se limita a big tech.
O que está mudando em 2025 e 2026 é a camada de aplicação. Enquanto os grandes constroem os modelos e a infraestrutura, uma nova geração de empresas está construindo as soluções que aplicam essa tecnologia a problemas específicos de negócio. E é nessa camada que o valor está sendo capturado de forma mais direta pelas empresas.
Segundo o Gartner, até 2027, agentes de IA vão desafiar as principais ferramentas de produtividade pela primeira vez em três décadas, provocando uma reorganização de mercado estimada em US$ 58 bilhões. Não se trata de substituir o Excel ou o e-mail trata-se de substituir fluxos inteiros de trabalho que hoje dependem dessas ferramentas.
A IBM projeta que 2026 será o ano em que sistemas multi-agente vão efetivamente entrar em produção nas empresas. O modelo de "um agente para cada tarefa" está dando lugar a ecossistemas de agentes coordenados equipes de IA que operam juntas da mesma forma que equipes humanas, com papéis definidos, pontos de escalonamento e supervisão.
Projeções indicam que até 2028 poderá haver 1,3 bilhão de agentes de IA ativos em ambientes corporativos. Isso não é uma previsão distante é a trajetória dos próximos três anos.
A adoção de IA não é uniforme. Alguns setores estão se movendo muito mais rápido que outros e a distância competitiva entre líderes e retardatários está aumentando dentro de cada indústria.
Serviços financeiros lideram em escala de adoção. Bancos, fintechs e gestoras foram os primeiros a implementar IA em compliance, detecção de fraude e processamento de crédito. Segundo dados da OpenAI, 70% dos projetos-piloto de IA agente vêm de três setores: serviços financeiros, varejo e manufatura. No setor financeiro especificamente, empresas com receita acima de US$ 5 bilhões investiram, em média, US$ 22,1 milhões em IA só em 2024.
Saúde mostra crescimento acelerado apesar das restrições regulatórias. IA está sendo aplicada em diagnóstico por imagem, análise preditiva, descoberta de medicamentos e automação de processos administrativos. A NVIDIA e a GE HealthCare estão colaborando em sistemas robóticos agentes para tecnologias de raio-X e ultrassom agentes de IA que interagem com equipamentos médicos físicos.
Manufatura e logística estão entre os setores com crescimento mais rápido. O mercado de IA em logística atingiu US$ 26,35 bilhões em 2025, com projeção de chegar a US$ 707 bilhões até 2034 um crescimento anual de 44,4%. Manutenção preditiva, otimização de cadeia de suprimentos e automação de chão de fábrica são as aplicações que mais geram retorno.
Varejo está investindo pesado em personalização e operações. O mercado de IA em varejo foi avaliado em US$ 9,36 bilhões em 2024 e deve chegar a US$ 85 bilhões até 2032. A aplicação vai além de recomendação de produtos: inclui gestão de estoque, precificação dinâmica e automação de atendimento.
Tecnologia lidera em velocidade de adoção. Segundo a OpenAI, o setor tech cresceu 11 vezes em adoção de IA nos últimos 12 meses o maior crescimento entre todos os setores.
Com base nos relatórios mais recentes de IBM, Gartner, Deloitte e McKinsey, cinco movimentos estão definindo o que vem a seguir:
A era de usar um único modelo de IA para tudo está terminando. O mercado está migrando para agentes especializados modelos treinados para tarefas específicas dentro de setores específicos. Um agente de IA para análise de contratos jurídicos é diferente de um agente para otimização de rotas logísticas. A especialização aumenta a precisão, reduz custos e diminui riscos.
Segundo a Deloitte, 75% das empresas devem fazer a transição de piloto para operacionalização da IA em 2025-2026. Isso muda fundamentalmente o perfil de investimento: menos gastos com prova de conceito, mais gastos com integração, governança e sustentação.
O MIT Sloan Management Review destaca que a mudança mais significativa de 2026 é tratar a IA generativa como recurso organizacional, não individual. Em vez de cada colaborador usando ChatGPT por conta própria, empresas estão construindo infraestruturas internas de IA o que a Intuit chama de "GenOS", um sistema operacional de IA generativa para toda a empresa.
A regulamentação de IA está se cristalizando globalmente. O AI Act europeu está em implementação, e outros mercados estão seguindo. Segundo a Forrester, IA generativa não governada em aplicações comerciais vai custar às empresas B2B mais de US$ 10 bilhões em valor perdido entre queda de ações, acordos judiciais e multas.
Mas as empresas mais avançadas estão tratando governança não como burocracia, mas como vantagem competitiva. Frameworks de governança robustos aumentam a confiança organizacional para expandir o uso de IA em processos de maior valor. Governança bem feita acelera a adoção não a freia.
A IBM projeta que em 2026, a competição não será mais sobre modelos de IA será sobre sistemas completos. Modelos vão se comoditizar. O diferencial será quem consegue orquestrar modelos, dados, agentes e infraestrutura de forma integrada. Novos tipos de chips para cargas de trabalho agentes podem surgir, e arquiteturas híbridas combinando modelos de linguagem com sistemas simbólicos e grafos de conhecimento vão se tornar o padrão para IA corporativa.
O Brasil não está fora dessa corrida. Segundo o relatório da OpenAI sobre o estado da IA corporativa em 2025, o Brasil está entre os mercados com crescimento mais acelerado em adoção de IA empresarial com aumento superior a 143% ano a ano.
Mas a realidade brasileira tem particularidades que amplificam tanto a oportunidade quanto o risco:
A mão de obra é mais barata que nos EUA ou Europa, o que historicamente reduziu o incentivo para automatizar. Mas com a IA reduzindo o custo da automação para uma fração do que era há cinco anos, a equação mudou. Automatizar no Brasil deixou de ser "economizar em folha" e passou a ser "operar com velocidade e precisão que não é possível manualmente".
A infraestrutura de dados em muitas empresas brasileiras ainda é fragmentada. Sistemas legados, dados em silos, processos não documentados esses são os obstáculos reais. Mas são exatamente os obstáculos que empresas especializadas em automação corporativa sabem resolver.
A regulamentação de IA no Brasil ainda está em desenvolvimento, o que cria uma janela de oportunidade para empresas que se antecipam e implementam governança antes de ser obrigatório.
Os ciclos tecnológicos têm uma característica consistente: a janela de oportunidade para adoção estratégica é mais curta do que parece.
Segundo o Gartner, em 2025 menos de 5% das aplicações corporativas tinham agentes de IA integrados. Até o final de 2026, essa porcentagem deve saltar para 40%. Essa velocidade de adoção significa que empresas que começarem a se preparar agora estruturando dados, mapeando processos, definindo governança estarão em posição de implementar quando a tecnologia atingir maturidade completa. As que esperarem vão enfrentar o custo adicional de fazer tudo isso sob pressão competitiva.
O mercado de IA agente deve adicionar entre US$ 2,6 e US$ 4,4 trilhões ao PIB global anualmente até 2030. Parte desse valor vai ser capturado por quem produz a tecnologia. Mas uma parcela significativa será capturada por quem a aplica primeiro e melhor às suas operações.
A corrida trilionária da IA não é uma narrativa de ficção científica. É um movimento de mercado em andamento, documentado por dados de praticamente toda grande consultoria e instituição de pesquisa do mundo.
Para lideranças de empresas de médio e grande porte, a mensagem é clara: o custo de não participar está aumentando a cada trimestre. Não é necessário implementar tudo de uma vez. Mas é necessário começar a construir a fundação dados, processos, governança, capacitação que vai permitir capturar valor quando a oportunidade for mais clara.
E para quem olha os números e pensa que isso é exagero: dois anos atrás, ninguém previa que o ChatGPT teria centenas de milhões de usuários. Um ano atrás, IA agente era conceito acadêmico. Hoje, 79% das organizações globais já implementaram alguma forma de IA agente.
A velocidade da mudança é o dado mais importante. E ela não está desacelerando.