ART-05ENTERPRISE AI

O que o relatório da Anthropic sobre agentes de IA revela sobre os próximos anos das empresas

15 min de leituraFevereiro 2026

Como o relatório da Anthropic e a reação de US$ 285 bilhões do mercado mostram que agentes de IA já são infraestrutura corporativa.

Em dezembro de 2025, a Anthropic publicou o "2026 State of AI Agents Report", uma pesquisa com mais de 500 líderes técnicos de empresas de todos os tamanhos e setores, conduzida em parceria com a firma de pesquisa Material. O objetivo era simples: entender como as organizações estão, de fato, usando agentes de IA em produção.

Dois meses depois, em fevereiro de 2026, a própria Anthropic demonstrou na prática o que o relatório descrevia em teoria. O lançamento de plugins especializados para o Claude Cowork (sua plataforma de IA agente) provocou uma queda de US$ 285 bilhões no mercado de ações de software em um único dia. A Thomson Reuters caiu 16%. A RELX, dona da LexisNexis, caiu 14%. A Wolters Kluwer, 13%. O índice de software do S&P 500 teve a pior semana desde abril de 2025.

Não foi uma crise financeira. Foi o mercado precificando, em tempo real, o que o relatório já dizia: agentes de IA deixaram de ser experimento e passaram a ser infraestrutura. E as empresas que não se adaptarem vão perder espaço para quem já se adaptou.

Vamos aos dados do relatório e ao que eles significam para quem dirige uma empresa hoje.

>O que os dados mostram

Os números do relatório são diretos e não deixam espaço para ambiguidade.

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57% das organizações → já usam agentes para fluxos multi-etapa
81% planejam expandir → para casos mais complexos em 2026
80% reportam → ROI mensurável em produção
90% dos líderes → observam mudança na forma de trabalho

57% das organizações já utilizam agentes de IA para fluxos de trabalho com múltiplas etapas. Não estamos falando de chatbots respondendo perguntas frequentes. Estamos falando de sistemas que planejam, executam e ajustam processos inteiros de forma autônoma. Dentro desse grupo, 16% já operam com agentes que coordenam processos entre múltiplas equipes e departamentos.

81% planejam expandir para casos de uso mais complexos em 2026. Desses, 39% estão desenvolvendo agentes para processos de múltiplas etapas e 29% para projetos que cruzam diferentes funções da empresa.

80% das organizações reportam que seus investimentos em agentes de IA já geram retorno econômico mensurável. Não projeções, não resultados de piloto, mas ROI real em produção.

90% dos líderes afirmam que agentes estão mudando a forma como suas equipes trabalham, com colaboradores dedicando mais tempo a atividades estratégicas, construção de relacionamentos e desenvolvimento de competências, e menos a execução repetitiva.

Esses números, por si só, já contam uma história. Mas a história fica mais clara quando olhamos para onde essa adoção está acontecendo.

>Onde os agentes estão gerando impacto real

O relatório da Anthropic detalha os casos de uso com maior impacto reportado pelas organizações pesquisadas.

Desenvolvimento de software lidera a adoção. Quase 90% das organizações usam IA para apoiar o desenvolvimento, e 86% já colocam agentes para escrever código de produção. As economias de tempo se distribuem de forma uniforme por todo o ciclo: planejamento (58%), geração de código (59%), documentação (59%), e revisão e testes (59%).

Mas o impacto vai muito além de engenharia. Análise de dados e geração de relatórios (60%) e automação de processos internos (48%) estão entre os casos de maior retorno. Para 2026, 56% das organizações planejam implementar agentes especificamente para pesquisa e geração de relatórios.

Os cases reais citados no relatório ilustram a escala do que já está em produção:

  • A Thomson Reuters usa agentes para alimentar o CoCounsel, sua plataforma jurídica com IA. Advogados que antes gastavam horas buscando documentos manualmente agora acessam 150 anos de jurisprudência e a expertise de 3.000 especialistas em minutos.
  • A eSentire, empresa de cibersegurança, comprimiu análises de ameaças de 5 horas para 7 minutos. A análise gerada por IA concorda com a de seus especialistas seniores em 95% dos casos.
  • A Doctolib, no setor de saúde, implementou o Claude Code em toda a equipe de engenharia, substituindo infraestrutura de testes legada em horas ao invés de semanas, e acelerando o lançamento de funcionalidades em 40%.
  • A L'Oréal atingiu 99,9% de precisão em analytics conversacional, permitindo que 44.000 usuários mensais consultem dados diretamente, sem precisar esperar por dashboards customizados.

Esses não são projetos-piloto. São sistemas em produção, gerando resultados operacionais reais.

>O que aconteceu duas semanas depois: o caso Cowork

O relatório descrevia tendências. O que a Anthropic fez em seguida foi demonstrá-las.

Em 30 de janeiro de 2026, a Anthropic lançou plugins especializados para o Claude Cowork, sua plataforma agente lançada no início do mês. Os plugins cobrem áreas como vendas, finanças, marketing, análise de dados e, o que causou o maior impacto, jurídico.

O plugin Legal permite que equipes jurídicas internas automatizem revisão de contratos, triagem de NDAs, verificação de compliance e geração de respostas padronizadas, tudo configurável de acordo com as regras e tolerâncias de risco de cada organização. Tudo por US$ 20/mês na versão Pro ou US$ 100/mês na versão Max.

A reação do mercado foi imediata. Segundo a Bloomberg, US$ 285 bilhões em valor de mercado evaporaram em um dia. A Thomson Reuters perdeu 16% do valor das ações. A RELX teve a maior queda em um único dia desde 1988. A LegalZoom caiu 19,7%. Mas o impacto não se limitou ao setor jurídico: a Salesforce, o CrowdStrike, a SAP e dezenas de outras empresas de software viram quedas significativas.

Para que eu preciso pagar por software se o desenvolvimento interno desses sistemas agora leva menos tempo com IA? E com ferramentas como o Cowork, até usuários menos técnicos conseguem substituir fluxos de trabalho existentes.

Thomas Shipp, LPL Financial

É importante colocar isso em perspectiva. Alguns analistas, como os da JP Morgan e do Barclays, argumentam que a reação foi exagerada e que modelos genéricos de IA não vão substituir expertise especializada de mercado no curto prazo. E eles provavelmente têm razão no horizonte imediato. Mas o sinal é inegável: o mercado está precificando uma realidade em que agentes de IA substituem, ou no mínimo comprimem dramaticamente, o valor de serviços e softwares que empresas pagam milhões para usar.

>Os três obstáculos que separam intenção de resultado

O relatório também é honesto sobre as barreiras. E essas barreiras são exatamente o que importa para quem está decidindo como agir.

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integração com sistemas existentes → 46%
qualidade e acesso a dados → 42%
gestão de mudança → 39%

Integração com sistemas existentes (46%). A maioria das empresas opera com dezenas de sistemas que não foram projetados para interagir com agentes autônomos. CRMs, ERPs, sistemas legados, bases de dados internas. Fazer um agente de IA funcionar dentro desse ecossistema não é questão de instalar um plugin. É questão de arquitetura, APIs, permissões e fluxo de dados.

Qualidade e acesso a dados (42%). Um agente é tão bom quanto os dados que ele consegue acessar. Se os dados da empresa estão em silos, desatualizados, duplicados ou mal estruturados, o agente vai produzir resultados inconsistentes. Segundo a pesquisa complementar da LangChain com 1.300 profissionais, 32% citam qualidade como a principal barreira para colocar agentes em produção.

Gestão de mudança (39%). Para empresas de pequeno e médio porte, esse obstáculo é ainda maior: 51% citam resistência de colaboradores e necessidade de treinamento como desafios primários. Agentes mudam a forma como as pessoas trabalham. Se a organização não prepara as equipes para essa transição, a tecnologia fica subutilizada.

Esses três obstáculos têm algo em comum: nenhum deles é tecnológico no sentido tradicional. São obstáculos de planejamento, governança e execução. São exatamente o tipo de desafio que exige parceria técnica especializada, não apenas ferramentas.

>O que o relatório da Anthropic + o caso Cowork significam para sua empresa

Quando combinamos os dados do relatório com o que aconteceu no mercado em fevereiro de 2026, a leitura para lideranças de empresas é direta:

>A janela para "esperar e ver" está fechando

Quando 80% das organizações já reportam ROI mensurável com agentes de IA, a fase de experimentação acabou para o mercado como um todo. A pergunta não é mais "isso funciona?". É "quanto estou perdendo por não ter implementado ainda?".

>O impacto financeiro é real, e é de dois lados

Do lado positivo, agentes geram economia operacional, ganho de velocidade e capacidade de escalar processos sem escalar equipes proporcionalmente. Do lado negativo, o mercado está reavaliando o valor de serviços e softwares que agentes podem substituir. Empresas que pagam milhões em licenças de software especializado precisam recalcular essa equação.

O lançamento dos plugins do Cowork a US$ 20/mês coloca em xeque modelos de negócio inteiros. Quando uma ferramenta de US$ 20 pode fazer 70% do que um software de US$ 50.000/ano faz, a decisão financeira se torna óbvia para quem está comprando.

>A integração é o novo gargalo, e é onde o valor é capturado

O relatório mostra que o maior desafio não é capacidade da IA. É conectar essa capacidade aos sistemas, dados e processos da empresa de forma segura, governada e escalável. As organizações que resolverem esse desafio primeiro vão operar em um patamar que concorrentes sem essa infraestrutura não conseguem atingir.

47% das organizações já combinam agentes prontos com desenvolvimento customizado. Esse modelo híbrido, onde a empresa usa ferramentas de mercado mas constrói as integrações e customizações específicas para sua realidade, é o que está se consolidando como padrão.

>Agentes vão além de código, e vão rápido

O relatório deixa claro que, embora desenvolvimento de software tenha sido o campo de prova dos agentes, isso é apenas o início. Pesquisa, atendimento ao cliente, planejamento financeiro, operações de cadeia de suprimentos: todas essas áreas estão na fila de expansão para 2026.

Conforme as organizações unificam sua infraestrutura de TI para aproveitar as capacidades da IA agente, precisarão também unificar suas equipes em torno dessa transformação, gerando engajamento ao invés de ceticismo.

Jim Rowan, Head de AI da Deloitte

>O que fazer com essa informação

Três ações concretas para lideranças que estão lendo esses dados e pensando no que vem a seguir:

  • Primeiro, faça um diagnóstico real da sua infraestrutura de dados e sistemas. Se você não sabe responder com precisão "quais dados minha empresa tem, onde estão, e quão acessíveis são para sistemas automatizados", esse é o primeiro investimento a fazer. Sem essa base, qualquer implementação de agentes vai subperformar.
  • Segundo, identifique os processos com maior potencial de retorno. Comece pelos que têm inputs e outputs claros, volume alto de execução, e custo operacional mensurável. Esses são os processos onde agentes entregam resultado mais rápido e onde o ROI é mais fácil de demonstrar.
  • Terceiro, estruture a governança antes da implementação. Com a regulamentação de IA avançando (o AI Act da UE entra em vigor em agosto de 2026, o Colorado AI Act em junho), empresas que definirem políticas de governança agora vão evitar o custo de adequar sistemas em produção sob pressão regulatória.

>Conclusão

O relatório da Anthropic não é um documento sobre tecnologia. É um documento sobre o futuro das operações empresariais.

Os dados mostram que 80% das organizações já capturam valor real com agentes de IA. Que 81% planejam expandir para casos mais complexos. Que 90% dos líderes já observam mudanças na forma como suas equipes trabalham. E que o mercado financeiro está precificando essa transformação em tempo real, com centenas de bilhões de dólares se movendo em dias.

Para quem dirige uma empresa, a mensagem é: o momento de entender essa mudança não é amanhã. É agora. Porque a cada mês que passa, a distância entre quem implementou e quem ainda está planejando aumenta. E essa distância se traduz em custo, velocidade, margem e capacidade de competir.

Os dados estão na mesa. A decisão é sua.

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