ART-07LEGAL AI

O que acontece quando o departamento jurídico para de ser o gargalo

12 min de leituraDezembro 2025

Como a equipe jurídica da Anthropic transformou seus maiores gargalos operacionais em fluxos automatizados sem escrever código.

Todo profissional que já trabalhou em uma empresa de médio ou grande porte conhece a dinâmica: o jurídico é o departamento que segura tudo. O blog post que precisa ser publicado amanhã está parado esperando revisão legal há três dias. O contrato que o comercial negociou há uma semana está na fila de redline. A avaliação de impacto de privacidade de um novo produto precisa ser escrita do zero, mesmo seguindo um padrão que se repete a cada lançamento.

Não é culpa dos advogados. É culpa de um modelo de trabalho que trata profissionais altamente qualificados como revisores de texto e preenchedores de formulários.

Em dezembro de 2025, a Anthropic publicou um caso interno que mostra o que acontece quando uma equipe jurídica decide mudar isso. Mark Pike, Associate General Counsel da empresa, construiu quatro fluxos de trabalho com IA que transformaram a operação do departamento legal. Detalhe: Mark não sabe programar. E os resultados não foram marginais. A revisão de materiais de marketing, que levava de dois a três dias, passou a levar 24 horas. Redlines de contratos que consumiam horas de comparação manual agora são gerados automaticamente. Avaliações de privacidade que precisavam ser escritas do zero passaram a ser montadas a partir de contexto acumulado.

Esse caso não é sobre a Anthropic. É sobre o que acontece quando profissionais que entendem profundamente seus processos ganham acesso a ferramentas que lhes permitem reconstruir esses processos. E por que isso deveria ser prioridade para qualquer empresa que trata eficiência operacional como vantagem competitiva.

>Como tudo começou: uma sala, um quadro branco e uma lista de frustrações

A história não começa com tecnologia. Começa com uma reunião.

A equipe jurídica da Anthropic se trancou em uma sala de reuniões e fez um exercício simples: listar tudo que drena energia, parece repetitivo e impede o time de fazer trabalho de alto impacto. O quadro branco encheu rápido.

  • Revisões de marketing com prazos apertados e dias de espera.
  • Redlines de contratos que exigiam horas de comparação manual.
  • Avaliações de impacto de privacidade que seguiam padrões similares mas precisavam ser refeitas do zero a cada vez.
  • Revisão de formulários de conflito de interesse que consumiam tempo significativo dos advogados trabalhistas.
  • Até a triagem de correspondência física entrou na lista.

O objetivo era transformar o jurídico de "o departamento do não" em parceiros estratégicos de verdade. Quando a equipe jurídica fica animada com IA, ela deixa de ser o bloqueio para a adoção mais ampla. Outros departamentos veem o que estamos fazendo e percebem que também podem.

Mark Pike, Associate General Counsel, Anthropic

O ponto de partida não foi "o que a IA pode fazer?". Foi "o que a gente queria não ter que fazer?".

>Quatro fluxos de trabalho, zero linhas de código

Ao longo de vários meses de experimentação, a equipe transformou seus maiores pontos de dor em fluxos de trabalho repetíveis. Cada um deles foi construído sem que nenhum advogado precisasse escrever uma linha de código.

>1. Revisão de materiais de marketing

Antes: a equipe de marketing envia um blog post ou peça de e-mail para revisão legal. O jurídico está sobrecarregado. O material fica na fila por dois a três dias. O marketing reclama do prazo. O jurídico reclama da carga. O ciclo se repete.

Depois: a equipe construiu uma ferramenta de auto-revisão integrada ao Slack. Profissionais de marketing colam o conteúdo direto no canal. O Claude analisa usando um "Skill", um arquivo contendo as diretrizes históricas e o framework de revisão da equipe jurídica. A ferramenta identifica problemas como direitos de publicidade, alegações exageradas, precisão estatística e uso de marcas registradas, classificando cada item como risco baixo, médio ou alto. Sugere correções antes mesmo do profissional abrir um chamado.

Quando o conteúdo é enviado para revisão formal, já chega triado para o advogado certo, com os problemas pré-identificados.

>_
revisão de marketing (antes) → 2-3 dias
revisão de marketing (depois) → 24 horas
método → auto-revisão via Slack + Claude Skill

"Eu ainda leio o blog post. Ainda reviso o trabalho", diz Mark. "Mas isso nos ajuda a operar com muito mais velocidade."

>2. Redline de contratos

Comparar versões de contratos e sugerir linguagem alternativa é um dos trabalhos mais consumidores de tempo na rotina jurídica. O Claude agora compara versões de documentos no Google Docs e Office 365, destaca alterações e recomenda linguagem baseada no playbook comercial da empresa.

A equipe descobriu como fazer o Claude trabalhar dentro do Google Docs, inserindo comentários com sugestões de edição em tempo real. Alguém revisando um contrato pode perguntar diretamente no documento: "Claude, essa linguagem atenderia nossas necessidades?" e receber feedback imediato.

Além disso, a equipe escreve Skills especializados para diferentes tipos de documento: NDAs, contratos com fornecedores, acordos comerciais. Cada Skill carrega instruções, boas práticas e padrões específicos para o tipo de revisão.

>3. Revisão de atividades externas

Na Anthropic, se um colaborador quer fazer consultoria externa ou participar de um conselho de ONG, precisa preencher um formulário para validação de conflitos de interesse. Os advogados trabalhistas gastavam tempo significativo revisando esses formulários, mesmo quando eram rotineiros.

O fluxo atual: o colaborador preenche um formulário com departamento, gestor e descrição da atividade. O Claude analisa a submissão contra o framework de política de conflito de interesses e envia uma recomendação ao advogado via Slack para aprovação.

"Antes, você precisava entrevistar o funcionário, fazer perguntas, entender os detalhes. Com esse fluxo, o Claude lê o formulário, pede mais informações se precisar, e sugere um resultado", explica Mark. "Depois vai para nossa fila com uma recomendação."

Os advogados agora focam nos casos atípicos. O humano continua decidindo. O Claude cuida da análise que antes consumia horas.

>4. Avaliações de impacto de privacidade (PIAs)

Escrever avaliações de impacto de privacidade do zero era tedioso, mesmo quando seguiam padrões similares. A equipe agora usa servidores MCP (Model Context Protocol) para conectar o Claude a uma pasta no Google Drive com PIAs anteriores, combinada com um Skill que instrui sobre formato e pontos de atenção.

Na prática, um advogado pode dizer: "Considerando o que eu priorizei em lançamentos anteriores, me ajude a escrever uma nova PIA usando essa pasta de avaliações anteriores como referência."

"O Claude é muito bom em ler esse contexto e usar o Skill para criar um novo template e me ajudar a seguir com o meu dia", diz Mark.

>O que essa história ensina sobre o futuro das operações corporativas

O caso da equipe jurídica da Anthropic ilustra quatro princípios que se aplicam a qualquer departamento de qualquer empresa.

>O problema nunca é falta de ferramenta. É falta de diagnóstico.

A equipe não começou avaliando o que a IA podia fazer. Começou listando o que queria parar de fazer. Esse ponto de partida é o que diferencia implementações que geram valor de implementações que viram prateleira.

A maioria das empresas faz o caminho inverso: compra a ferramenta e depois procura onde aplicar. O resultado são pilotos que funcionam em demonstração mas não resolvem problemas reais.

Não comece com "o que a IA pode fazer?". Comece com "o que a gente queria não ter que fazer?".

Mark Pike

>Quem mais sabe onde dói é quem vive o processo.

Mark não é programador. Ele é advogado. Ele conhece cada gargalo da sua rotina, cada exceção que paralisa o fluxo, cada etapa que consome tempo sem gerar valor. Nenhuma equipe de TI, por mais competente que seja, teria diagnosticado esses problemas com a mesma precisão.

A combinação que gera resultado é: profissional de domínio (que entende o problema) + ferramenta que permite construir sem código (que remove a barreira técnica) + governança adequada (que garante que a solução opera dentro dos padrões da empresa).

>IA não substitui o profissional. Muda o que o profissional faz.

Em nenhum dos quatro fluxos o advogado foi removido do processo. O que mudou foi o ponto em que o advogado entra. Em vez de gastar três dias lendo um blog post linha por linha, ele recebe o material pré-analisado e foca nos pontos que realmente exigem julgamento humano. Em vez de comparar contratos manualmente, ele valida as sugestões que o Claude gerou a partir do playbook.

O resultado não é menos trabalho jurídico. É trabalho jurídico de maior valor. O advogado deixa de ser revisor de texto e passa a ser conselheiro estratégico.

Mark projeta um futuro onde novos advogados que entram na empresa herdam o conhecimento acumulado da equipe através de Skills e bibliotecas de prompts. Em vez de passar semanas lendo memorandos antigos para entender o estilo da equipe, um recém-contratado pode ativar um Skill que ensina o Claude a escrever como o advogado de produto da equipe ou a formatar atas de conselho no padrão do grupo societário.

>Quando o jurídico se move, a empresa toda se move.

O ponto mais estratégico do caso é este: quando o departamento jurídico adota IA e demonstra resultados, ele deixa de ser o gargalo que impede a adoção em outros departamentos. Ele se torna o exemplo que outros times seguem.

Em muitas empresas, o jurídico é justamente o departamento mais cético sobre IA, por razões legítimas de risco, compliance e responsabilidade. Quando essa barreira cai, o sinal para o resto da organização é poderoso: se até o jurídico está usando, é seguro. Se até o jurídico está ganhando eficiência, nós também podemos.

>O contexto mais amplo: por que esse caso importa agora

Esse caso foi publicado em dezembro de 2025. Dois meses depois, em fevereiro de 2026, a Anthropic lançou plugins especializados para o Claude Cowork, incluindo um plugin jurídico que automatiza revisão de contratos, triagem de NDAs e verificação de compliance. O resultado: US$ 285 bilhões em valor de mercado de empresas de software evaporaram em um único dia. A Thomson Reuters perdeu 16%. A RELX caiu 14%.

O mercado reagiu com pânico. Mas o caso de Mark Pike mostra que a realidade é mais sutil e mais consequente do que o mercado imaginou.

Não é que a IA vai substituir advogados. É que advogados com IA vão operar em um patamar que advogados sem IA não conseguem igualar. E o mesmo vale para analistas financeiros, gestores de operações, equipes de compliance, profissionais de RH e qualquer outro departamento que hoje opera com processos manuais e repetitivos.

As empresas que vão se destacar não são as que compram as ferramentas mais caras. São as que criam o ambiente para que seus profissionais, os que entendem os processos por dentro, possam diagnosticar problemas e construir soluções com velocidade. Com governança. Com segurança. Com responsabilidade.

O caso da equipe jurídica da Anthropic é apenas uma amostra. Mas é uma amostra do que está por vir para todas as empresas que decidam parar de tratar IA como "projeto de TI" e começar a tratá-la como ferramenta de operação.

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