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"Não estou brincando e isso não é engraçado": quando uma engenheira principal do Google elogia publicamente a ferramenta de um concorrente

14 min de leituraJaneiro 2026

O episódio Jaana Dogan e o que ele revela sobre a compressão da execução técnica e o novo perfil profissional que as empresas precisam.

Em 2 de janeiro de 2026, Jaana Dogan publicou uma mensagem na plataforma X que provocou uma reação em cadeia no mundo da engenharia de software. Dogan não é uma desenvolvedora qualquer. É Principal Engineer no Google, responsável pela API do Gemini. Principal Engineer é um título reservado aos 0,1% mais seniores da empresa. Antes do Google, foi Distinguished Engineer no GitHub e Principal na AWS. Projetou sistemas que processam bilhões de requisições em escala global.

Não estou brincando e isso não é engraçado. Estamos tentando construir orquestradores de agentes distribuídos no Google desde o ano passado. Há várias opções, ninguém está alinhado. Dei ao Claude Code uma descrição do problema, ele gerou o que construímos no ano passado em uma hora.

Jaana Dogan, Principal Engineer no Google

Três parágrafos de prompt. Uma hora. Um protótipo funcional comparável ao que uma equipe do Google levou um ano para produzir, sem conseguir chegar a um consenso sobre a arquitetura.

A ferramenta que fez isso se chama Claude Code. Foi criada pela Anthropic como projeto paralelo de um único engenheiro em setembro de 2024. E o fato de uma engenheira principal do Google ter elogiado publicamente a ferramenta de um concorrente direto é, por si só, um sinal que merece atenção.

>O que realmente aconteceu (e o que não aconteceu)

A nuance importa. Dogan foi a primeira a dar contexto depois que o post viralizou.

O Claude Code não inventou uma solução nova. Não descobriu um algoritmo desconhecido. Não fez nada que a equipe de Dogan não soubesse fazer. O que ele fez foi pegar conhecimento técnico que já existia, padrões arquiteturais que já eram conhecidos, e gerar código estruturado, com lógica completa e diretamente executável, a partir de uma descrição condensada de três parágrafos.

O código não era perfeito. Precisava de refinamento. Não era production-ready. Mas a completude era comparável ao resultado de um ano de iteração.

O Claude Code não substituiu a engenheira. Ele amplificou a expertise que ela já tinha. A década de experiência de Dogan com sistemas distribuídos foi o que tornou o prompt eficaz. A IA fez em uma hora a execução. O ser humano fez em uma década o julgamento.

>De projeto paralelo a ferramenta de referência

O Claude Code nasceu em setembro de 2024 como side project de Boris Cherny, um engenheiro da Anthropic que antes havia sido Principal Engineer na Meta (Facebook/Instagram). Cherny não tem diploma de ciência da computação. Estudou economia, largou a faculdade, e construiu sua carreira resolvendo problemas práticos.

Os números de Cherny em dezembro de 2025 são reveladores: em 30 dias, ele fez 259 pull requests, 497 commits, 40 mil linhas de código adicionadas e 38 mil removidas. E 100% dessas contribuições foram escritas pelo próprio Claude Code. O criador da ferramenta não escreve mais código manualmente.

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2022 → IA completa linhas individuais de código
2023 → funções inteiras
2024 → componentes e módulos
2025 → sistemas completos a partir de linguagem natural

>O impacto que já está acontecendo no mercado de trabalho

Se a IA está escrevendo a maior parte do código, o que acontece com quem escrevia antes?

A resposta veio em agosto de 2025, em um estudo de Stanford conduzido por Erik Brynjolfsson. O estudo, intitulado "Canaries in the Coal Mine", analisou registros de folha de pagamento da ADP, cobrindo milhões de trabalhadores americanos em dezenas de milhares de empresas.

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profissionais 22-25 anos (expostos a IA) → emprego caiu 13%
desenvolvedores de software → queda de ~20% vs. pico
profissionais seniores (mesmas funções) → estável ou +6% a +12%

O estudo identificou uma distinção crítica: o declínio acontece nas funções onde a IA substitui tarefas (automação), não onde ela complementa o trabalho humano (aumento). Desenvolvedores juniores que executavam tarefas codificáveis estão sendo deslocados. Profissionais seniores que fazem design de sistemas, tomam decisões arquiteturais e lidam com problemas ambíguos não estão.

É exatamente a dinâmica que o caso Dogan ilustra. O Claude Code executou código. Dogan definiu o problema, sintetizou as opções, e julgou a qualidade do resultado.

>O que isso significa para quem dirige uma empresa

  • O gargalo mudou: de capacidade de execução técnica para capacidade de definir problemas com precisão. A habilidade de diagnosticar, especificar e avaliar se tornou a competência mais valiosa.
  • Velocidade de prototipagem redefine competição: startups em fase seed tinham 21% menos funcionários no 1o semestre de 2025 do que em 2020. Novos entrantes vão se mover numa velocidade impossível há dois anos.
  • O perfil de quem você contrata muda: conhecimento codificável é o que IA substitui melhor. Conhecimento tácito, acumulado por anos de experiência, é o que permanece valioso.

Para quem contrata: o valor de um profissional está migrando da capacidade de executar para a capacidade de dirigir. Saber escrever código importa cada vez menos. Saber o que construir, por quê, e como avaliar o resultado importa cada vez mais.

Esta indústria nunca foi um jogo de soma zero. A Anthropic fez um ótimo trabalho construindo sua ferramenta.

Jaana Dogan

Não se trata de escolher entre Claude Code, Gemini, Copilot ou qualquer outra ferramenta específica. Trata-se de reconhecer que a capacidade de gerar sistemas complexos a partir de linguagem natural já existe, já funciona, e já está sendo usada pelas melhores equipes do planeta.

A pergunta para quem dirige uma empresa não é se essa capacidade vai chegar ao seu setor. É se, quando chegar, sua organização vai ter as pessoas certas para saber o que pedir.

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